"Ou você é livre, ou você não é. Ou você é livre e a coisa é autêntica, real, viva, ou não é nada." (A humilhação, Philip Roth)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Fascinação pelo silêncio de Mary Farrel

( http://www.fronterad.com/?q=fascinacion-por-el-silencio)

(Trad. Caroline Cotta de Mello Freitas)

Hoje é domingo, e a cidade não emite som algum, nem do ocasional pássaro, nem de um carro distraído, nem dos cachorros em seu passeio matinal. Nada. É um silêncio quase total. Não é um silêncio triste, nem ameaçador, nem de uma solidão indesejada, se trata simplesmente de um lindo momento de quietude que me permite refletir sobre o silêncio.

Já faz tempo esse assunto me fascina em todas as suas ramificações. Começou a me intrigar devido a um pequeno mal estar pessoal. Não agüentava as constantes interrupções nas conversas. Esperava com irritação a minha vez. Parecia que todo mundo falava ao mesmo tempo. Quando escutavam? Como sabiam do que falavam os outros?

Em minha formação familiar, ou talvez cultural, a interrupção era considerada falta de educação. Não entendia, portanto, o costume mediterrâneo que, pouco a pouco, se revelava como participativo, simpático e, para minha surpresa, compreensível. As conversas se desenvolviam sem pausas, e se solapavam continuamente. Quando, por algum motivo, chegava o silêncio, se dizia: “Acaba de passar um anjo”.

Deste modo, me dei conta do pouco valor que na cultura espanhola e talvez também na latina, se atribui ao silêncio. Depois de muitos anos vivendo na Espanha, fui viajar com uma amiga de Nova York. Em um dado momento, durante nossa excursão de três dias de bicicleta pela campina inglesa, minha companheira me disse, chateada: “Você não para de me interromper”. Sem me dar conta, tinha adotado o costume latino de interromper constantemente o outro durante as conversas.

Esta experiência me deu ainda mais estímulo para continuar refletindo sobre o significado cultural dos usos do silêncio.

Efetivamente, enquanto certas culturas consideram pernicioso o silêncio durante uma conversa, outras consideram adequado realizar uma pausa de um ou dos segundos depois a intervenção de alguém, para dar margem a outra intervenção. Existem também outras culturas que permitem umas pausas ainda mais longas para dar tempo para pensar sobre o que foi dito e preparar o que se vai dizer em sequência. Estes crêem no dito: “É preciso pensar antes de falar”.

O silêncio, como tema de pesquisa, cada dia me intrigava mais. Inicialmente examinei o contraste entre o silêncio e o ruído. Logo comecei a captar as diferenças entre uns silêncios e outros. Perguntava-me onde se encontram os silêncios e qual era a importância de cada tipo. De fato, existem silêncios pacíficos e silêncios perniciosos. A compreensão de determinados silêncios pode ajudar a fomentar a paz, ou provocar o conflito.

Nossos provérbios e ditos estão cheios de advertências sobre o papel do silêncio em nossas vidas. Por exemplo, em espanhol temos o dito: “O bebê que não chora, não mama”. Sem dúvida, a cultura chinesa prega o oposto: “O pato que grasna recebe a primeira bala”. Ou seja, vai para a panela primeiro. Ou, no Japão se adverte que: “O prego que sobressai é o que recebe a martelada”.

O Evangelho de São João nos conta como Pilatos disse a Jesus: De onde és tu? Jesus não respondeu, atitude que enfureceu ao político que, por sua vez, o ameaçou com essas palavras: Não me respondes? Não sabes que tenho poder para te soltar e poder para te crucificar? É preciso avaliar os perigos que podem conter certos silêncios. Inclusive, se inventou a tortura para obrigar a falar, e a ameaça de morte para obrigar a calar.

Se poderia fazer uma escala de periculosidade sobre o falar e o calar. Às vezes, a valentia de falar para proteger a justiça custa pouco (oferecer alguns comentários positivos para respaldar uma vítima de assédio no trabalho). Às vezes, a valentia de guardar silêncio custa muito, como no caso da família que protegeu Anne Frank.

Ao longo dos últimos anos refleti muito sobre o papel que tem o silêncio na convivência humana. A seguir mostro alguns exemplos:

No âmbito doméstico, ao nos abstermos de soltar um comentário negativo acalmamos uma situação. No âmbito do trabalho, pode ser importante não meter lenha em uma sessão de fofoca. E, nos âmbitos diplomáticos, de negócios ou de estudos internacionais, convém ser muito cauteloso e observador para detectar as regras não escritas sobre os usos do silêncio. Assim evitaríamos alguns mal entendidos baseados em impressões, interpretações feitas a partir de nossos próprios padrões sociais. Essa pessoa é mal educada, ou está agindo de acordo com algum código de relações diferente do meu?

Hoje em dia se instruem aos alunos das altas escolas de negócios na arte de perceber os códigos silenciosos, e em como agir sem ofender nem ser ofendido. Na sociedade contemporânea é indispensável aprender a calibrar os usos do silêncio.

Quanto a mim, sigo fascinada com o silêncio, ou os silêncios, em múltiplas áreas da vida humana, que, dado sua pouca importância, frequentemente passam desapercebidas. As seguintes categorias incluem variações do silêncio: a filosofia, a arte, a literatura, a música, o cinema, a aventura (o deserto, os pólos, a montanha), a poesia, a espiritualidade, a surdez, o autismo, a saúde e seus tabus, o zero (é um nada), as finanças e a política, a física (o ruído), e o humor (a ironia).

E, talvez, como diz Hamlet: O resto é silêncio.


domingo, 12 de setembro de 2010

La Paz também é a minha casa...

Ontem fui à comemoração de aniversário de uma amiga muito querida. Enquanto conversava com Joana sobre La Paz, soltei um dos atos falhos mais explícitos dos quais me lembro de já ter dito... eu disse: "é que La Paz é uma casa..." Chamei a cidade de casa!! Estava descrevendo a cidade e, así no más, disse casa. Sim, eu me senti em casa em La Paz... sim, La Paz, como São Paulo, é minha casa, com tudo o que isso significa. Aí me dei conta da sorte que é ter mais de uma cidade-casa, ainda mais porque não nasci em nenhuma delas e sempre terei Porto Alegre como meu ninho, ou seja, tenho a cidade-casa onde nasci e duas cidades-casa que escolhi... ou que me escolheram... não sei...
O fato é que essa semana foi de "encontros paceños". Terça passada e ontem encontrei Dado Galdieri, fotógrafo brasileiro (link para conhecer o trabalho dele abaixo) que conheci em La Paz (viveu por lá uns bons anos... hoje está morando em Lima com a sua linda família) e se tornou um bom amigo, que está de passagem por São Paulo. Hoje fui à abertura da exposição do amigo Miquel García (dois links para conhecer um pouco do trabalho dele abaixo), na Casa das Caldeiras, em que ele apresenta o trabalho que realizou na Bolívia e esses reencontros me deram ainda mais saudades de lá... Sim, ando nostálgica... Não triste. É que cada sopro da experiência boliviana, como encontrar Dado e Miquel, além de ver o trabalho que Miquel fez na Bolívia, me fazem sentir bem, menos lejos de tudo o que vivi por lá... E como é bom ver amigos fazerem coisas lindas... como é bom rever gente buena onda, gente que encontrei em La Paz, gente que essa cidade-casa me presenteou... espero poder reencontrar mais dessas gentes...


Dado Galdieri: http://dadogaldieri.photoshelter.com/

Miquel García: http://www.hangar.org/gallery/album323
e
http://web.me.com/kakaeka/Caldeiras_Blog/OBRAS_EM_CONSTRU%C3%87AO/Entries/2010/6/16_EM_PROCESSO.html

domingo, 5 de setembro de 2010

Saudades...

Sinto saudades do frio, dol sol do altiplano, dos Apus, do cheiro de folha de coca, de caminhar por La Paz... sinto saudades de tantas coisas, de tantas "gentes"... sinto saudades da "sopa de letrinhas" paceña, da mistura de pessoas e de sotaques, todos tentando falar espanhol. Tentavivas que às vezes viravam um "frantuguês"(francês+português), "portunhol"(português+espanhol) ou um "itaguês" (italiano+português), quando nos parecia que nos expressarmos em nossas línguas mães seria mais eficiente para a compreesão por parte de nossos interlocutores que também não eram hispano hablantes. Dessa "sopa de letrinhas" participavam, pacientemente, meus amigos bolivianos e espanhóis, que explicavam que essa ou outra expressão não era espanhol, mas português, francês ou italiano... que me entendiam apesar do meu sotaque e que me ensinaram muito!! Não só a falar melhor a língua de Cervantes, mas de tudo. Meus amigos bolivianos me explicavam coisas da Bolívia, da América Latina... E, apesar do esquisito da situação, uma vez que sou latino americana, já não se assustavam mais com o fato de terem que me explicar, por exemplo, quem era esse/essa cantor/cantora famossísimo/a e de quem eu não fazia a mais remota ideia da existência. Aprendi muito. Sobre a América Latina, sobre o Brasil, sobre música, sobre arte, sobre direitos, sobre feminismo, sobre a esquerda e a direita latino americanas, sobre a vida...
Um ano atrás eu estava em La Paz, dividia um apartamento com Christelle, francesa, e passavamos horas conversando, à noite, em frente à janela da sala, que tinha uma vista linda de La Paz. Chris tinha um dicionário francês-espanhol e, como naquela altura nenhuma das duas dominava bem o castellano, esse dicionário era o nosso melhor companheiro nessas tertúlias. Ficavamos ali, sentadas no escuro, admirando a maravilha da cidade, suas ladeiras, suas montanhas, tomavamos mate de coca e dividiamos nossas descobertas cotidianas sobre a Bolívia. Dividiamos nossos avanços e encantamento. Sinto saudades de dividir a paixão e o maravilhamento... Sinto saudades de comer marraqueta (o melhor pão que alguém pode encontrar em La Paz...), de ir ao show do Atajo!, de tomar Paceña ou Huari, de rir por Sopocachi, de ir ao Conamaq, de frequentar as livrarias e bibliotecas de La Paz, de assistir a debates no MUSEF, no Hall da Vicepresidência e no auditório do Banco Central... de ver whiphalas tremulando... de escutar: "Eso no es desfile, es marcha de protesta!!" Esclarecimento para que nenhum transeunte tivesse dúvidas em relação ao que presenciava. Tenho saudades de ver crianças de rostos redondos e corados... do colorido dos aguayos que, nas costas das mulheres, enchem La Paz de cor. Sinto saudades sotaque alteño, do sotaque paceño, de ouvir morenada, cueca e outros rítimos no minibus ou no táxi... Tenho saudades de La Paz e da Bolívia...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A Bolivia que só a Veja não vê

A Bolívia que só a Veja não vê

por cristiano última modificação 18/05/2010 14:09 Caroline Cotta de Mello Freitas e Vinicius Mansur

A Veja, por possuir essa perspectiva distorcida sobre “o que é ser índio”, afirma, portanto, que Morales não é indígena por não falar aymara fluentemente ou por ser solteiro


Caroline Cotta de Mello Freitas e Vinicius Mansur

Publicada na edição 2164 da revista Veja, de 12 de maio deste ano, a matéria “A farsa da nação indígena”, referindo-se à Bolívia, traz uma série de equívocos e de fatos descontextualizados que, juntos, dão forma a um texto totalmente preconceituoso com o país e com o processo político por ele vivido atualmente.

Apesar do repórter Duda Teixeira assinar o texto de La Paz, é difícil crer que um jornalista esteve nesta cidade e, ainda assim, intitulou sua peça jornalística tal qual foi publicada. Só não percebe os traços indígenas da maioria da população quem passou por aqui e não olhou a cara das pessoas. Quem caminhou pelas ruas de ouvidos tapados ignorando os “aymara e quechua-hablantes”. Quem não se permitiu aos olores, não provou da comida, não buscou saber da música, não buscou na literatura, enfim, quem censurou todos os sentidos e quase todas suas formas de reprodução. De tal maneira que desatar tantos devaneios travestidos de jornalismo nos consumiria o espaço de toda uma edição da revista. Mas vamos a alguns pontos.

Alguns dirão que La Paz não é a Bolívia e, de fato, a Bolívia é muito mais diversa, para se ter uma idéia são 36 povos indígenas no país, além de afrobolivianos, grupos descendentes de imigrantes e muitos mestiços. O autor do artigo pode alegar que a dita farsa não é obra do povo boliviano, senão dos líderes do “processo de cambio”. Porém, a própria matéria cita que a nova Constituição – resultado de uma Assembléia Constituinte, posteriormente aprovada em referendo popular durante a primeira gestão de Evo Morales – considera a Bolívia um Estado Plurinacional. Afinal, onde está a farsa?

De maneira oportunista, o texto segue manipulando informações sem critério para criticar as medidas de orientação indigenista do governo, porém utiliza os argumentos de outros indigenistas quando estes sustentam críticas ao poder executivo, transformando a matéria em um malabarismo argumentativo que, ao final, caricaturiza toda expressão indígena e reduz a diversidade e as possibilidades políticas que se apresentam dentro do processo de mudanças.

A Veja afirma que o projeto político do MAS (partido de Morales) é uma farsa porque “os índios representam apenas 17% da população”, porque o nacionalismo indígena foi “criado em universidades americanos e européias” e “transferido para o altiplano por 1,6 mil ONGs”. Afirma que “o caos foi instalado” e que “a Bolívia tornou-se um país sem lei” com a institucionalização da Justiça Comunitária, ou seja, com o reconhecimento legal pelo Estado das formas de justiça aplicadas há séculos nas comunidades originárias. Medida responsável por “propagar linchamentos entre a população” que agora ocorrem “em média, um por semana”, conclui Teixeira - ou seu editor - sem qualquer menção a origem dessas informações.

Assim como não menciona que o último censo oficial, realizado em 2001, apontou que 66% da população se identificava como indígena. Não menciona Tupac Katari, Bartolina Sisa, Julian Apaza, Pablo Zarate"Willka” e todos aqueles que, desde há muito, construíram lutas e idéias em prol de uma nação onde os indígenas fossem livres e respeitados, antes mesmo de qualquer contato com universidades e ONGs ocidentais. Não mencionam o Artigo 190 da Constituição, que estabelece, entre outras coisas, que “a jurisdição indígena originária camponesa respeita o direito a vida, o direito a defesa e os demais direitos e garantias estabelecidos na presente Constituição”.

O jogo mesquinho de construção do real não diz que linchamentos são um fenômeno urbano, não rural, que está relacionado ao amplo descrédito em relação às instituições da ordem, como a Polícia e a Justiça [1]. O episódio de agressão sofrido por Victor Hugo Cárdenas é atribuído à Justiça Comunitária. No entanto, a “pelea” de certos grupos e movimentos indígenas com Cárdenas é bem anterior ao governo Morales. Cárdenas, um antigo ideólogo do indigenismo Katarista, é considerado traidor por alguns grupos e movimentos indígenas, pois aceitou ser vice-presidente, a partir de 1993, do então presidente Gonzalo Sanchez de Losada, um dos maiores responsáveis pelo avanço de políticas neoliberais, que entre outras coisas entregaram a preços “módicos” os recursos naturais bolivianos às empresas transnacionais.

A manipulação grosseira segue com o caso Patzi. Na versão da revista, o ex-candidato do MAS ao governo de La Paz nas eleições regionais de abril deste ano, o aymara Félix Patzi, foi “flagrado dirigindo bêbado, foi condenado pela Justiça comunitária a fazer mil tijolos. Além disso, teve a candidatura inabilitada. Se Patzi tivesse concorrido ao pleito e vencido, isso tampouco garantiria a sua posse”.

Patzi de fato foi flagrado bêbedo, justamente no momento em que o governo enfrentava os trabalhadores e empresários do setor de transporte, que chegaram a realizar bloqueios de estradas em oposição ao projeto de lei que previa, entre outras coisas, a suspensão da licença para conduzir daqueles motoristas profissionais flagrados bêbados trabalhando. Nesse contexto, o MAS decidiu substituir Patzi pelo também aymara César Cocarico. A Justiça Comunitária entra na história através das bases de Patzi, que em seu povoado aymara, Patacamaya, em busca do perdão que o reabilitaria a ser candidato, estabeleceram que ele deveria construir os tijolos para se redimir. Porém, mesmo cumprindo a pena, o MAS não mudou de posição.

E assim o texto vai distorcendo fatos, chamando a Justiça Comunitária de “brutal arma contra a oposição e ex-aliados de Morales”. Mas, não menciona que boa parte dos adversários do presidente, em geral os governantes de outrora, fugiram do país com medo da Justiça Comum, uma vez aprovada a Lei Anticorrupção Marcelo Quiroga Santa Cruz, que, entre outras coisas, considera que os crimes de corrupção cometidos por servidores públicos no exercício de suas funções são imprescritíveis.

A Veja mente quando afirma que Morales já perdeu o apoio do Conselho Nacional de Ayullus e Markas do Qullasuyu (Conamaq) e da Assembléia do Povo Guarani (APG). É verdade que ambas organizações tem tomado posturas críticas diante de políticas estatais, ou da falta delas, e seguem apostando na mobilização como forma de conquistar direitos, ao invés do apoio apático e incondicional. Porém, uma revista que escreve que os protestos diminuíram nos primeiros anos de governo Morales “já que o presidente controlava os baderneiros” é incapaz de entender que Conamaq e APG seguem fazendo parte da aliança que governa a Bolívia.

A Bolívia, desde as revoltas chefiadas por Tupac Katari, no século XVIII, se caracteriza por grandes mobilizações populares. Os famosos “bloqueios” e “marchas” são estratégias de manifestação do povo boliviano há séculos. Feliz país que se caracteriza pelo dissenso, nada mais democrático. Perigo é o silêncio conivente, a indignação que não toma as ruas, seja por impedimento (como nas ditaduras) ou por indiferença. Manifestações públicas, como as marchas bolivianas e críticas abertas ao governo não são só necessárias, são fundamentais para que se fortaleça um Estado democrático. O dissenso não é uma prova de “farsa”, é uma prova de “saúde” democrática.

Mas, infelizmente a Veja segue disseminando de maneira sistemática sua visão preconceituosa em relação aos povos indígenas e também aos quilombolas, vide a matéria publicada na edição anterior, de número 2163, datada de 5 de maio de 2010, intitulada “A farra da antropologia oportunista”. Nela, a revista atribui a declaração "não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente de cultura indígena original" ao antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Porém, é vergonhosamente desmentida por Viveiros de Castro que, em uma carta para a revista, afirma: “Nenhum antropólogo que se respeite a pronunciaria”.

A Veja, por possuir essa perspectiva distorcida sobre “o que é ser índio”, afirma, portanto, que Morales não é indígena por não falar aymara fluentemente ou por ser solteiro. Questionamentos como esses tem mais relevância para Veja que a autonomia indígena estabelecida pela nova Constituição, a incorporação da bandeira indígena wiphala como um dos símbolos oficiais do país, a obrigação dos funcionários públicos em aprender uma língua originária falada na região onde trabalham, a criação de três universidades indígenas (uma aymara, uma quechua e uma guarani), a libertação do trabalho escravo de indígenas guaranis em fazendas em Santa Cruz, a erradicação do analfabetismo na Bolívia ou até mesmo o fato do país ter apresentado o maior crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina (3,2%) em 2009, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), fatos omitidos na matéria.

Evidentemente, o processo político encabeçado por Morales encontra enormes desafios, dissidências e disputas internas, que reproduzem, por vezes, as velhas práticas em busca do poder – conhecidas em todos os países do mundo - mas também muitos boatos, muitas versões. Elementos existentes em todos os processos políticos vivos e pujantes.

A acusação de que Morales divide o país com suas declarações, como disse Jaime Apaza à Veja, são no mínimo curiosas. Afinal, falar em inclusão de grupos tradicionalmente excluídos não significa dividir o país. Um presidente que defende os direitos de grupos invisibilizados há séculos, não profere palavras de “ódio”. Claro, para certas parcelas da população boliviana, sim, as idéias defendidas por Morales são ameaçadoras porque ameaçam privilégios seculares e a manutenção de uma sociedade racista e excludente, em que a origem étnica tradicionalmente “define” quais lugares alguém pode ocupar na sociedade.

Para aqueles que carregam traços indígenas em um país como a Bolívia, onde a circulação de pessoas de origem indígena em certas áreas das cidades era restrita até 1952, o atual processo político e social tem um valor difícil de ser mensurado. E, certamente, impossível de ser taxado como farsa.


Caroline Cotta de Mello Freitas é doutoranda em Antropologia pela Universidade de São Paulo, desenvolve pesquisa sobre direitos indígenas e movimentos sociais na Bolívia. É professora da FESPSP e da FASM, pesquisadora associada ao MUSEF - BO.

Vinicius Mansur é correspondente do Brasil de Fato na Bolívia.

Nota

[1] Afirmação feita pelo representante da Organização das Nações Unidas (ONU) na Bolívia, Denis Racicot, em 24 de março de 2010, durante a apresentação do Relatório sobre os Direitos Humanos na Bolívia em 2009.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Posesión de Evo en Tiahuanaco

No dia 21 de janeiro, em uma cerimônia simbólica no sítio arqueológico de Tiahuanaco, Evo Morales Ayma foi proclamado líder da "Abya Yala" (nome que significa a união de vários povos indígenas sul americanos).
Ás seis da manhã do dia 21 me dirigi, com Christelle, Flávio, Heloisa e Vinicius, ao Cementerio General de La Paz para pegar o "mini bus" até Tiahuanaco. Chegando lá, fiquei impressionada com a quantidade de estrangeiros e de pessoas comuns (como de praxe, homens e mulheres de todas as idades, incluindo nenês...) que também estavam por lá com a intenção de ir a
"posesión". Já dava para imaginar que haveria MUITA gente em Tiahuanaco. Mas, ainda assim, me surpreendi chegando lá...
A viagem, ao som de morenada, foi impressionante. No caminho se viam, à beira da estrada, homens, mulheres e crianças saudando aos ônibus, "mini buses" e carros, que se dirigiam a Tiahuanaco, com bandeiras do MAS e, principalmente, Whipalas. Foi muito emocionante ver isso... era como se as crianças dissessem: Também estaremos lá!! LINDO... A viagem levou muito mais tempo que o normal (2 horas mais ou menos) e, depois de 3 horas e meia (o engarrafamento em El Alto e na estrada era impressionante!!), chegamos. Ao chegar , repito, impressionavam a quantidade de gente que havia e a quantidade de policiais desde a estrada até o sítio arqueológico.
Apesar de haver MUITA gente, como grupos de comunidades indígenas de todo o país e uma quantidade INCRÍVEL de estrangeiros, a cerimônia correu com tranquilidade. O único momento de tensão era quando alguém insistia em ficar de pé, bloqueando a visão do telão para a maioria, que estava sentada na grama.
Evo fez um discurso interessante, permeado com frases como: "Los pueblos del mundo de pie, nunca de rodillas frente al capitalismo!" e "El cambio en Bolivia hace posible el cambio del mundo y el cambio del mundo es el cambio de Bolivia!" Em momentos como esses, as pessoas aplaudiam e balançavam suas Whipalas. Mas, em geral, o silêncio imperava e todos ouviam atentamente ao líder da "Abya Yala". Foi lindo de ver... como em 2006, chovia, e no momento da cerimônia o céu se abriu e o sol do altiplano brilhou... Como com uma espécie de bendição da Pachamama, com o sol alto e forte, Evo Morales foi, simbolicamente, empossado como Presidente do Estado Plurinacional da Bolivia. Em uma clara demonstração do quão significativo é o fato de Morales ter sido reeleito, estiveram também presentes à cerimônia lideranças de movimentos sociais latinoamericanos e representantes de diferentes grupos indígenas, como o Algonkin (da América do Norte). Ao final, a sensação que tive foi a de que indígenas de todo o continente americano se sentem, de alguma forma, representados na figura de Morales e que o processo de cambio boliviano iniciado com sua primeira vitória, e reassegurado com a segunda, é uma mensagem de esperança, de que uma outra realidade é possível, para toda a população indígena do continente.


sábado, 6 de fevereiro de 2010

Feria de las Alasitas

No dia 24 de janeiro começa em La Paz a Feria de las Alasitas. Essa feira tem como principal característica a venda de miniaturas que tem uma finalidade ritual. Essa finalidade é que elas se tornem realidade sob os auspícios do Ekeko (adiante explicarei quem ele é). A feira, é importante dizer, coincide com o solstício de verão.
A tradição da feira teve início em 1781, quando o governador de La Paz, Sebastián Segurola, determinou que se celebrasse uma festa anual em homenagem à divindade pré-colonial chamada Ekeko. Essa homenagem se devia ao fato de a cidade de La Paz ter sobrevivido ao cerco comandado por Túpac Katari e que durou 109 dias (em uma das maiores rebeliões indígenas contra o domínio espanhol na região do Alto Peru).
Desde então se realiza esta feira em La Paz. A feira inicia ao meio dia do dia 24 de janeiro e dura aproximadamente 3 semanas. A feira também acontece em outras cidades da Bolivia, mas a maior e mais importante é a paceña.
Há, principalmente, miniaturas de coisas que fazem parte do universo doméstico, como fogões, geladeiras. Há também casas, carros, malas cheias de dinheiro. Enfim, todo aquele bem material que alguém possa desejar. Essas miniaturas são compradas e "oferecidas" ao Ekeko, que vai trazê-las para quem pede. Uma coisa interessante é que também se podem comprar miniaturas de passaportes, para quem deseja viajar; diplomas, de graduação e pós (comprei um de tese de doutorado... por si a caso... rsrs); documentos de propriedade de casas, apartamentos; miniaturas de cesta básica, carrinho de supermercado cheio; miniaturas de lojas (se pode escolher de que tipo de produtos); certificados de boa saúde; contratos de trabalho; miniaturas de vans e caminhões dos mais variados tipos... enfim, quase tudo que se possa imaginar. Ah!! Também existem os galos e as galinhas!! Mas esses não se pode comprar, para que sejam realmente eficientes devemos ganha-los!! Eles garantem amor. Também se encontram miniaturas de "famílias", ou seja, o galo, a galinha e seus ovos. Estes são para quem quer ter filhos e, seguindo a mesma lógica, devem ser recebidos como presente. A feira é composta por MUITAS banquinhas onde se encontra todo tipo de miniatura (MESMO!!) e as pessoas chegam cedo, para garantir que conseguirão encontrar tudo que querem/necessitam. Cheguei a feira ás 11 da manhã e estava LOTADA. Como sempre, velhos, adultos, crianças, palanque de políticos (García Linera tinha acabado de fazer o seu discurso quando cheguei), muita música e banquinhas de comida [que serviam, principalmente o Plato paceño, que consiste em um choclo (um tipo de milho que tem os grãos grandes), um pedaço de queijo frito ou natural e favas cozidas em sua vagem].
As pessoas chegam cedo porque depois de comprar tudo o que se deseja, e de, ocasionalmente, ganhar seu galo/galinha, ao meio dia do dia 24 é preciso submeter todas as coisas a um ritual, a Ch'alla. A Ch'alla é um ritual andino que inclui aspergir álcool ou vinho nas coisas, jogar pétalas de flores, defumar com incenso e tudo isso ao dizer algumas orações que misturam tradições pré-hispânicas e católicas. Esse ritual, em geral, é realizado por pessoas de origem aymara ou mestiços.
As minhas coisas (porque além do diploma de doutorado, comprei uma casinha, uma mala de dinheiro, um carro, um certificado de boa saúde, entre outros... rs) foram Ch'alladas por uma senhora aymara, bem velhinha, que perguntou o meu nome e depois começou a jogar o vinho e as pétalas, na sacolinha onde estava tudo, incensou a dita sacolinha, dizendo algumas coisas em aymara. A Ch'alla é paga, e há uma corrida às senhoras que parecem mais "confiáveis," porque aparentemente mais velhas e/ou com mais traços de aparência aymara, para que a Ch'alla seja feita, exatamente, ao meio dia. Segundo meus amigos paceños, Ch'allando as coisas nessa hora do dia 24 tudo é mais "potente" e as chances de o Ekeko atender aos teus pedidos é maior. Pelo sim, pelo não, fiz tudo como eles e recomendaram. Importante: devemos guardar as coisas que compramos e devidamente Ch'alladas (ou seja, melecadas de vinho/álcool, com pétalas de flores e etc) em um lugar escuro e onde não toquemos muito (como no fundo do guada roupa, por exemplo). Perguntei até quando deveria guardar minhas coisas, mas meus amigos não souberam me responder... enfim, vou levá-las para São Paulo. Quem sabe lá os auspícios do Ekeko também cheguem...

Quem é o Ekeko?
O Ekeko é um Deus da abundância, da fecundidade e da alegria. Tem origem aymara e ainda é bastante popular no altiplano andino. Se acredita que o Ekeko traz abundância para uma casa em que se lhe oferecem álcool e cigarros.


O Ekeko é representado como carregando muitas coisas (comida, dinheiro e bens).

O Ekeko é sempre representado como um tipo sorridente, gorducho, vestido com roupas típicas do altiplano e carregando uma grande quantidade de volumes cheios de alimentos e outros objetos de primeira necessidade que estão presos a suas roupas. Em geral, as estatuetas que o representam tem uma boca grande com um buraco redondo onde se pode, e deve, colocar cigarros acessos, para que ele os fume e fique feliz. Sua felicidade poderá garantir que cuide bem dos interesses da família e da casa, trazendo fartura e alegria. O Ekeko é, principalmente, um símbolo de fertilidade e boa sorte.

P.S.: escrevi esse post há tempos, não tenho a menor ideia de porque não o publiquei antes... a verdade é que ando bem descuidada com o blog...




sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

"Em “homenagem" ao frio de La Paz." Poema do amigo Vinícius Mansur

Em “homenagem" ao frio de La Paz.

O frio escracha


Ai que saudade que eu tenho da praia e da moçada.

De quentes bate-papos sobre o nada.

Explicados por cerveja gelada.

Ai que saudade que eu tenho de escutar a onda em queda.

E até daquele caldo que ao ouvido veda.
E até de quem da areia grita merda.

Ai que saudade que eu tenho das roupas de praia perdidas.

Gargalhando das bundas duras ou caídas.

Da vergonha sem salva-vidas.

Ai que saudade que eu tenho de todas aquelas rodas.

Sempre atentas as novas modas

e repleta de empata-fodas.

Ai que saudade que eu tenho do chinelo e da bermuda,

Do peito aberto pelo janeiro que desnuda.

Mas aqui no frio o sentido muda.

Como pôde o Neruda?

A rima mudou de rumo, o poeta pede ajuda.

Ai que saudade que eu tenho das palavras mais carnudas.

Se em janeiro faz frio, se calor é vinte graus,

Puta que pariu, como será meu carnaval?

Mas mantenho o escracho contra o verão invernal.

Com a poesia já perdida, espero como verdade a fervura global.


abs pra vcs,
V.