"Ou você é livre, ou você não é. Ou você é livre e a coisa é autêntica, real, viva, ou não é nada." (A humilhação, Philip Roth)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Feria de las Alasitas

No dia 24 de janeiro começa em La Paz a Feria de las Alasitas. Essa feira tem como principal característica a venda de miniaturas que tem uma finalidade ritual. Essa finalidade é que elas se tornem realidade sob os auspícios do Ekeko (adiante explicarei quem ele é). A feira, é importante dizer, coincide com o solstício de verão.
A tradição da feira teve início em 1781, quando o governador de La Paz, Sebastián Segurola, determinou que se celebrasse uma festa anual em homenagem à divindade pré-colonial chamada Ekeko. Essa homenagem se devia ao fato de a cidade de La Paz ter sobrevivido ao cerco comandado por Túpac Katari e que durou 109 dias (em uma das maiores rebeliões indígenas contra o domínio espanhol na região do Alto Peru).
Desde então se realiza esta feira em La Paz. A feira inicia ao meio dia do dia 24 de janeiro e dura aproximadamente 3 semanas. A feira também acontece em outras cidades da Bolivia, mas a maior e mais importante é a paceña.
Há, principalmente, miniaturas de coisas que fazem parte do universo doméstico, como fogões, geladeiras. Há também casas, carros, malas cheias de dinheiro. Enfim, todo aquele bem material que alguém possa desejar. Essas miniaturas são compradas e "oferecidas" ao Ekeko, que vai trazê-las para quem pede. Uma coisa interessante é que também se podem comprar miniaturas de passaportes, para quem deseja viajar; diplomas, de graduação e pós (comprei um de tese de doutorado... por si a caso... rsrs); documentos de propriedade de casas, apartamentos; miniaturas de cesta básica, carrinho de supermercado cheio; miniaturas de lojas (se pode escolher de que tipo de produtos); certificados de boa saúde; contratos de trabalho; miniaturas de vans e caminhões dos mais variados tipos... enfim, quase tudo que se possa imaginar. Ah!! Também existem os galos e as galinhas!! Mas esses não se pode comprar, para que sejam realmente eficientes devemos ganha-los!! Eles garantem amor. Também se encontram miniaturas de "famílias", ou seja, o galo, a galinha e seus ovos. Estes são para quem quer ter filhos e, seguindo a mesma lógica, devem ser recebidos como presente. A feira é composta por MUITAS banquinhas onde se encontra todo tipo de miniatura (MESMO!!) e as pessoas chegam cedo, para garantir que conseguirão encontrar tudo que querem/necessitam. Cheguei a feira ás 11 da manhã e estava LOTADA. Como sempre, velhos, adultos, crianças, palanque de políticos (García Linera tinha acabado de fazer o seu discurso quando cheguei), muita música e banquinhas de comida [que serviam, principalmente o Plato paceño, que consiste em um choclo (um tipo de milho que tem os grãos grandes), um pedaço de queijo frito ou natural e favas cozidas em sua vagem].
As pessoas chegam cedo porque depois de comprar tudo o que se deseja, e de, ocasionalmente, ganhar seu galo/galinha, ao meio dia do dia 24 é preciso submeter todas as coisas a um ritual, a Ch'alla. A Ch'alla é um ritual andino que inclui aspergir álcool ou vinho nas coisas, jogar pétalas de flores, defumar com incenso e tudo isso ao dizer algumas orações que misturam tradições pré-hispânicas e católicas. Esse ritual, em geral, é realizado por pessoas de origem aymara ou mestiços.
As minhas coisas (porque além do diploma de doutorado, comprei uma casinha, uma mala de dinheiro, um carro, um certificado de boa saúde, entre outros... rs) foram Ch'alladas por uma senhora aymara, bem velhinha, que perguntou o meu nome e depois começou a jogar o vinho e as pétalas, na sacolinha onde estava tudo, incensou a dita sacolinha, dizendo algumas coisas em aymara. A Ch'alla é paga, e há uma corrida às senhoras que parecem mais "confiáveis," porque aparentemente mais velhas e/ou com mais traços de aparência aymara, para que a Ch'alla seja feita, exatamente, ao meio dia. Segundo meus amigos paceños, Ch'allando as coisas nessa hora do dia 24 tudo é mais "potente" e as chances de o Ekeko atender aos teus pedidos é maior. Pelo sim, pelo não, fiz tudo como eles e recomendaram. Importante: devemos guardar as coisas que compramos e devidamente Ch'alladas (ou seja, melecadas de vinho/álcool, com pétalas de flores e etc) em um lugar escuro e onde não toquemos muito (como no fundo do guada roupa, por exemplo). Perguntei até quando deveria guardar minhas coisas, mas meus amigos não souberam me responder... enfim, vou levá-las para São Paulo. Quem sabe lá os auspícios do Ekeko também cheguem...

Quem é o Ekeko?
O Ekeko é um Deus da abundância, da fecundidade e da alegria. Tem origem aymara e ainda é bastante popular no altiplano andino. Se acredita que o Ekeko traz abundância para uma casa em que se lhe oferecem álcool e cigarros.


O Ekeko é representado como carregando muitas coisas (comida, dinheiro e bens).

O Ekeko é sempre representado como um tipo sorridente, gorducho, vestido com roupas típicas do altiplano e carregando uma grande quantidade de volumes cheios de alimentos e outros objetos de primeira necessidade que estão presos a suas roupas. Em geral, as estatuetas que o representam tem uma boca grande com um buraco redondo onde se pode, e deve, colocar cigarros acessos, para que ele os fume e fique feliz. Sua felicidade poderá garantir que cuide bem dos interesses da família e da casa, trazendo fartura e alegria. O Ekeko é, principalmente, um símbolo de fertilidade e boa sorte.

P.S.: escrevi esse post há tempos, não tenho a menor ideia de porque não o publiquei antes... a verdade é que ando bem descuidada com o blog...




sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

"Em “homenagem" ao frio de La Paz." Poema do amigo Vinícius Mansur

Em “homenagem" ao frio de La Paz.

O frio escracha


Ai que saudade que eu tenho da praia e da moçada.

De quentes bate-papos sobre o nada.

Explicados por cerveja gelada.

Ai que saudade que eu tenho de escutar a onda em queda.

E até daquele caldo que ao ouvido veda.
E até de quem da areia grita merda.

Ai que saudade que eu tenho das roupas de praia perdidas.

Gargalhando das bundas duras ou caídas.

Da vergonha sem salva-vidas.

Ai que saudade que eu tenho de todas aquelas rodas.

Sempre atentas as novas modas

e repleta de empata-fodas.

Ai que saudade que eu tenho do chinelo e da bermuda,

Do peito aberto pelo janeiro que desnuda.

Mas aqui no frio o sentido muda.

Como pôde o Neruda?

A rima mudou de rumo, o poeta pede ajuda.

Ai que saudade que eu tenho das palavras mais carnudas.

Se em janeiro faz frio, se calor é vinte graus,

Puta que pariu, como será meu carnaval?

Mas mantenho o escracho contra o verão invernal.

Com a poesia já perdida, espero como verdade a fervura global.


abs pra vcs,
V.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Porque La Paz "te atrapa" ou "me ha atrapado"...

Em outubro passado fui a Cochabamba para o Congresso da Clacso, lá conheci Juan Bello, professor da mexicana UNAM e uma pessoa incrível. Ao me ouvir falar em e de La Paz, me olhou e disse:"La Paz te ha atrapado!!" Foi a primeira vez que me dei conta de que sim, La Paz tinha, numa tradução livre e imprecisa da expressão, me ganhado...
Mas não foi La Paz que me "ganhou", foi a Bolívia, o povo boliviano, a paisagem do Altiplano (que eu tinha lido sobre em José Maria Arguedas, mas nem podia imaginar a grandiosidade e beleza), foram os amigos que fiz aqui e, mais que tudo, foi a vivencia que me transformou em uma pesquisadora mais curiosa, com mais "ganas" de saber... se saberei ou não, são outros 500... mas é fato que hoje sou/estou diferente como pessoa e como pesquisadora.
Listar o que pude aprender aqui não vem ao caso. O que quero é tentar, pelo menos, manifestar porque decidi ficar mais tempo na Bolívia.
O momento que o país vive é de mudança (anunciada aos quatro ventos, aliás), ou de um esforço gigantesco neste sentido. Poder viver e observar esse processo, com todos seus acertos e equívocos é um privilégio. Como antrópologa, hoje me sinto mais preparada e, no entanto, menos capaz... Explico. Preparada para ver e ouvir, mas menos capaz de analisar e chegar à conclusões. Uma vez me ouvi de Acácio Almeida dos Santos, pesquisador sério, estudioso das questões afro-brasileiras e africanas, que quem passa uma semana no continente africano escreve um livro, quem passa um mês escreve um paper e quem passa um ano por lá não consegue escrever nada, tamanhas as questões e o quanto elas estão imbricadas... é claro que isso é força de expressão... Mas, o fato é que, às vezes, quanto mais vemos, ouvimos e vivemos, menos somos capazes de escrever sobre esse contexto. Ou mais achamos que temos que ler, ver e ouvir para escrever para consegui-lo... Eu tenho certeza que conseguirei, mas, definitivamente, preciso desse tempo mais...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Cierre de campaña del Mas, Fiesta de la victoria e muito mais...

Faz MUITO tempo que não escrevo por aqui... O mês de decembro foi intenso.
O ato de Cierre de Campaña del MAS em 03 de dezembro foi uma das coisas mais incríveis que já vi. Mais de um milhão de pessoas reunidas em El Alto, homens, mulheres, crianças, jovens, velhos... TODOS... muita esperança no ar e no olhar das pessoas. Uma sensação de que o processo de "cambio" é uma realidade irrevogável. Tomara seja!! Não me lembro da última vez que tinha visto tantas pessoas reunidas por um motivo político. A palavra emocionante é pouco para descrever o que senti em El Alto neste dia... Foi uma grande festa, durou horas, com discursos, música e bandeiras... MUITAS BANDEIRAS tremulando, eram Whipalas, bandeiras do MAS e da Bolívia. Fazia frio, chovia, e ninguém, NINGUÉM mesmo, arredava o pé de El Alto.
No dia 06 de dezembro aconteceram as eleições. O voto, na Bolívia como no Brasil, é obrigatório. Este ano foi realizado o recadastramento dos votantes no país, para tentar coibir fraudes e foi criado o padrão biométrico para identificar os eleitores. É proibida a circulação de carros, minivans, ônibus... enfim, é proibida a circulação de qualquer veículo motorizado. Só carros e táxis devidamente registrados na Corte Nacional Electoral, em geral por jornalistas e/ou observadores internacionais, podem circular pelas cidades. As ruas estavam vazias e silenciosas. No dia 06 La Paz teve um dia de sol radioso, nem parecia época de chuvas... as pessoas caminhavam pela cidade, passeavam com crianças, cachorros... eu aproveitei para caminhar pela cidade também e ver como estava o clima em La Paz no dia das eleições. A votação correu com tranquilidade, poucos incidentes foram relatados. Os prognósticos se confirmaram e Evo Morales Aymá-Garcia Linera venceram. Mas o que não se confirmou foi a margem da vitória. A vitória foi estrondosa, o MAS conseguiu mais de dois terços no congresso e o apoio da maioria da população ao "proceso de cambio" se confirmou de maneira mais que inegável. No final da tarde me dirigi a Plaza Murillo, em frente ao Palacio Quemado, como muita gente. De fato, a grande festa da vitória foi o Cierre de campaña em El Alto, porque, como não havia transporte, a maior parte das pessoas não tinha como se deslocar até a Plaza Murillo. Foi uma festa e tanto!!! MUITO EMOCIONANTE. Evo fez um bom discurso, agradecendo a todos os bolivianos e, em especial, a alguns departamentos da Meia Lua onde o MAS, surpreendentemente, se saiu muitíssimo bem nas urnas. O clima era de euforia por se saber de que mais cinco anos de governo estão garantidos a Evo e que a maioria no Congresso aumenta, e muito, as possibilidades de regulamentação das mudanças previstas na nova constituição e sua consequente implementação.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

La fiesta de las Ñatitas

Dia 08 de novembro aconteceu a festa das Ñatitas no Cementerio General de La Paz. Mais uma vez, fiquei muito surpresa e impressionada com a festa... de novo eram velhos, crianças, adultos e jovens que lotavam o cemitério. As Ñatitas são caveiras, crânios humanos, que as pessoas guardam em suas casas. A ideia é que as caveiras protegem a casa e seus moradores. Os crânios tem nome, história de vida e gostos. As pessoas levam as caveiras para o cemitério e lá oferecem a elas flores, velas, bebidas, cigarros, incenso, comida, o que elas gostam mais e, claro, também música. Inclusive dançam para as caveiras... curioso é pouco!! Tirei muitas fotos de caveiras diferentes, porque elas são "arrumadas" de modos muito diferentes. Algumas tem gorros com seus nomes, podem ter bonés (que ás vezes também tem os nomes das caveiras), óculos escuros... enfim... às vezes as pessoas as mantem em urnas de vidro e assim as levam até o cemitério, lá as retiram das urnas e as dispõem de modo que todos as vejam. Então se sentam ao lado, ou próximas às suas Ñatitas, rezam por elas e ficam ali, como numa espécie de exposição. Enquanto estão ao seu lado, famílias inteiras, de velhos a nenês, podem ficar contemplando as Ñatitas, fumando com elas (claro que as crianças não fumam...), dançando (mas dançam...) ou, o que me pareceu mais uma vez incrível, podem comer com elas. Vi famílias inteiras almoçando ao lado de suas Ñatitas e conversando animadamente, como se estivessem em um parque e não em um cemitério.
O cemitério estava bem cheio, porque pessoas que não tem Ñatita também vão ao cemitério, levando coisas para oferecer às Ñatitas alheias... Qualquer um pode oferecer algo a uma caveira, de coroas de flores, comida a cigarros. É simples, é só aproximar-se, cumprimentar o dono/a da caveira e perguntar o nome da Ñatita. Isto é muito importante, porque ao saber o nome da caveira a pessoa estabelece uma relação com ela, via "apresentação" feita por intermédio do dono/a da caveira, claro. Às vezes a conversa se alonga, com o dono da Ñatita explicando quem era, com que idade e como morreu, enfim, dando detalhes sobre a caveira quando era um vivo...
Eu ofereci um cigarro para a caveira de uma cholita idosa que arrumava sua Ñatita e todas as coroas de flores caíram, achei que era um bom momento para me aproximar, já que ela estava sozinha e, claramente, estava precisando de ajuda... Aí perguntei: Puedo oferecerle un cigarrillo? E ela: Si, claro!! Nesta hora se aproximou também uma senhora boliviana, que não tinha Ñatita, mas estava mais por dentro das coisas, e perguntou: Cómo se llama? E a cholita: Alberto. A senhora enquanto ouvia o nome, começou a colocar uma coroa de flores na Ñatita, comida e a realizar uma espécie de conversa com "Alberto"... Eu, então perguntei: Cómo hago? E a senhora: Tienes que encender el cigarrillo e ponerlo en su boquita. E assim, sob o olhar contente da cholita, eu o fiz. Acendi o cigarro, ajeitei na "boca" da caveira e a cholita sorrindo disse: Le gustan harto los cigarrillos!! Lo va fumar en un ratito!!! Eu sorri, me despedi da cholita e do "Alberto" e fui embora. Pelo sim, pelo não, achei bom fazer uma oferenda... como dizem por aqui, por si acaso... Afinal, nunca se sabe, né?!
Segundo a "tradição", pelo que pude ler no jornal La Razón, dia 08 é o dia em que definitivamente os vivos se despedem dos espíritos dos mortos, dos ajayus. Depois de uma visita que se inicia ao meio dia do dia 01 de novembro.
Até o ano passado as pessoas entravam com as suas caveiras na Igreja do cemitério e era realizada uma missa na presença das caveiras e em intenção de todas elas, depois o padre aspergia água benta e abençoava as Ñatitas e seus donos. Este ano a Igreja se recusou a realizar a missa e, já no dia 02, haviam cartazes anunciando que no dia 08 não seriam realizados serviços religiosos, ou seja, não haveria missa. As pessoas não estavam nada contentes com isso... Aliás, estavam um tanto revoltadas... Mas, o que se há de fazer?? Se a Igreja não quer, que seja sem ela... No entanto, como houve um falecimento, a Igreja foi aberta. Mesmo assim não foi permitido que as pessoas entrassem na Igreja com as suas Ñatitas.
Conversando sobre as Ñatitas com Luz Castillo, a antropóloga que trabalha com os pesquisadores associados do MUSEF e que tem me ajudado a encontrar arquivos e fazer contatos para a pesquisa, descobri mais um monte de coisas sobre esta "tradição". Ela me disse que ás vezes as Ñatitas estão numa família há muitas gerações, podendo ser inclusive algum antepassado, mas que também existe um tráfico de crânios, o que implica em violações de sepulturas. Em geral, o melhor é que se ganhe uma Ñatita, não se deve comprá-la. Mas, eventualmente, as pessoas as compram... Luz me explicou que alguns pesquisadores já tentaram pesquisar sobre isso, mas que as pessoas não gostam de falar sobre as suas Ñatitas e o modo como se relacionam com elas. E existem pouquíssimos estudos sobre as Ñatitas e o que elas representam e tal. Também não se sabe de onde vem o costume, se é uma mistura de antigos costumes indígenas com a cultura espanhola, e nem desde quando é praticado. E, que, recentemente, o modo como as pessoas se relacionam com as ñatitas, como o tipo de pedidos que fazem a elas tem mudado muito, ano a ano.
O que se sabe é que o ajayu, que é o espírito, a parte imaterial de vivos e mortos, sempre está e permanece, mesmo depois da morte, na "cabeça", isto é, no crânio. Por isso, cada Ñatita é um espírito, contem um ajayu, daí seu poder.
Apesar do clima colorido e festivo no cemitério, o que mais uma vez me impressionou muitíssimo, as pessoas tendem a tratar as Ñatitas de modo bastante respeitoso. São realizadas orações católicas e, o que imagino (porque infelizmente não entendo a língua...) também sejam orações, em aymara, e, acho, posso dizer que é uma festa onde se pode notar, por trás do clima animado, que algo sério e poderoso se passa. Os cemitérios em muitas religiões, como as afrobrasileiras, são percebidos como um lugar de energia muito intensa e poderosa. Por isso, acho que não me engano ao dizer que apesar do clima festivo, cheio de cor e música, o que se passava era um ritual forte e cheio de significados. Quem sabe daqui uns anos eu consiga compreender estes significados... confesso que, ao saber da escassez de estudos sobre o tema, fiquei com coceira para pesquisar isso... rsrsrs Quem sabe minha amiga Lú Duccini, estudiosa do Candomblé, topa e daqui uns anos levamos uma pesquisa sobre as Ñatitas para frente?! Independente de vir ou não a pesquisar o tema, o que garanto é que NUNCA irei esquecer as coisas que vi e que senti no Cementerio General de La Paz no dia 08 de novembro de 2009, quando pela primeira vez pude ver e estar em uma Fiesta de las Ñatitas!!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

La Fiesta del Día de Todos los Santos

Ontem foi feriado na Bolivia, como no Brasil, no México (e não sei mais onde), era dia de homenagear os mortos. Mas há uma diferença incrível entre a maneira de fazer a homenagem no Brasil e na Bolivia.
Fui a festa no Cementerio General de La Paz. A festa começa no dia 01 de novembro ao meio dia, quando as almas dos mortos chegam para visitar seus parentes que estão vivos. As famílias se preparam para receber as "almas" fazendo as "mesas", que são oferendas com coisas que os falecidos/as gostavam. Coisas como pães, doces coloridos, bolachas, vinho, cerveja, coca-cola, chicha (uma bebida feita de maíz, um tipo de milho, muito popular na Bolivia), às vezes algum prato específico que o falecido/a mais gostava, as flores que mais gostavam e, claro, sua música preferida.
Ninguém chora de saudades, todos estão felizes porque tem a oportunidade de se reencontrar com seus entes queridos. São feitas rezas, visitas aos túmulos e estão todos envolvidos nas homenagens, inclusive as crianças.
No dia 2, ao meio dia, as almas voltam para o céu. Na hora de se despedir, ao meio dia, é celebrada uma missa na Igreja do Cementerio General de La Paz e, imagino, também nos cemitérios clandestinos que existem por todos os cantos... As pessoas vão a missa e aproveitam para colocar as oferendas nos túmulos, o que inclui tocar as músicas que o falecido/a gostava em frente ao seu túmulo. Isso, para um brasileiro, beira o surrealismo... Imagine as pessoas cantando, algumas dançando, num cemitério??!! Ninguém está triste, há um monte de crianças por todos os lados... as famílias aproveitam e fazem picnic dentro do cemitério e fora dos muros do cemitério a festa é ainda maior... MUITA GENTE, muitas bancas de comida e de comércio em geral... as ruas próximas ao cemitério parecem um grande mercado, nada lembra que é dia de finados.
Famílias inteiras rezam ao lado de outras que cantam por seus mortos e tudo, tudo, é muito colorido... as tradições católicas são mescladas com as tradições aymara em relação a morte.
Ao final, tive a impressão de que os bolivianos tem uma maneira muito saudável de lidar com a morte. A morte é mais que uma coisa natural, é um estado, que não afasta definitivamente aqueles que se amam e nem impede o contato entre os que se foram e seus parentes e amigos. Porque todos sabem que, pelo menos, uma vez por ano se reencontrarão e poderão privar uns da companhia dos outros. Inclusive se diz que receber as almas com lágrimas é ruim, porque, afinal, não se pode receber uma visita ou um hóspede com lágrimas, mas, sim, se deve recebe-los com alegria e júbilo. Isso me impressionou muito, em especial a presença de tantas crianças no cemitério e a tranquilidade com que todos lidam com a morte.
Domingo que vem, dia 08 de novembro, é o dia da Fiesta de Las Ñatitas, quando de fato chega ao fim o encontro dos vivos com os mortos. Neste dia as pessoas levam caveiras (crânios humanos de desconhecidos) que tem em suas casas para proteção para os cemitérios. No cemitério enfeitam as caveiras, lhes dão de beber e fumar. Não sei mais que isso. Mas garanto que domingo que vem estarei no cemitério novamente e depois escreverei contanto como é a festa. Se já me surpreendi com a festa de finados, imagino que vá me impressionar ainda mais... contarei tudo na segunda, dia 09.

Mi cumple en La Paz

Como já disse aqui, Helô voltou para La Paz. A volta de Heloisa foi uma sorte!! É muito bom poder discutir as coisas com alguém que vem do mesmo lugar que nós, ou seja, que tem as mesmas referências e uma formação semelhante. Sem contar o fato de que há coisas que só se pode discutir em português... rs ou seja, ter uma pesquisadora brasileira como interlocutora, neste momento, é mais que bom, é ótimo!!!
Bom, Helô está dividindo o apê comigo e Christelle. Nós as três nos damos super bem e nos divertimos muito juntas. Até quarta passada Gabriela, minha irmã, e Juliana, uma amiga, estiveram aqui em La Paz, hospedadas em nossa casa. Bom, a confusão era tanta, principalmente porque as gurias não falam espanhol, que, num dado momento, Chris escreveu no facebook: "La Paz: territorio brasileño en Bolivia?" Pobre... rs mas é fato que as gurias e ela se comunicaram, até conversas tiveram... e a Chris adora estar com "sus brasileños", como ela diz... rs
A Gabi veio me visitar e aproveitou para fazer com que a viagem coincidisse com meu aniversário, o que foi ótimo!!
Mas genial mesmo foi a festa surpresa que a Helô e a Chris organizaram para mim com a ajuda da Gabi. Eu não desconfiei de nada e não facilitei em nada a vida delas... porque no sábado, dia 24, dia em que elas organizaram a festa, ninguém conseguiu me tirar de casa... rs Eu tava com começo de gripe, o dia estava chuvoso e eu tinha uma preguiça monstra de sair... as pobres das gurias tiveram super pouco tempo para organizar tudo e, enquanto elas corriam por La Paz, a Gabi quase dava piruetas dentro de casa para me despistar... rsrsrs Mas deu tudo certo e elas conseguiram me fazer várias surpresas!! rsrs
Os amigos vieram, comemos, bebemos e, claro, bailamos!!! Foi divertidíssimo!! Me senti tão acarinhada como se estivesse em SP com todos os meus amigos queridos... pude ter a prova cabal de que, sim, já tenho bons amigos em La Paz!!
Nunca vou esquecer mi primer cumple paceño... Ojalá tenga yo la oportunidad de comenmorar otros en La Paz!!!